segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Diário do Hangar - Agosto 2011


Acústico, por que não?

Para escrever o diário de agosto de 2011, voltarei no tempo. Para ser mais preciso, cerca de três ou quatro anos atrás. Logo após o lançamento do TROYC, passamos a incorporar em nosso set um formato acústico. Uma grande parte de nossas composições foram feitas em violões. Por exemplo , "To Tame a Land", "When The Darkness Takes You" e mais recentemente algumas músicas do Infallible nasceram assim também.
Além de dar continuidade a este fato, que faz parte da história musical da banda, achamos satisfatório incluir um formato que pudesse, ao mesmo tempo, ser diferente do set normal elétrico e também pudesse ser apresentado em lugares menores, mais introspectivos como escolas, teatros, auditórios etc. A exemplo do que fizemos depois com o "workshow", abrimos nosso portfólio de apresentações do Hangar com várias possibilidades, ficando a disposição para qualquer tipo de local ou ambiente. O formato acústico faz parte da nossa formação. Eduardo Martinez é Bacharel em Composição e Violão e todos os outros tocam um pouco desse instrumento, além de terem sidos influenciados por bandas e artistas que sempre tiveram essa referência calçada em violões como inúmeros nomes que vão desde Maná, Dave Matthews, os antigos MTVs acústicos, etc etc.
Dentro desse espírito começamos a tocar nosso set acústico em março de 2008. Tivemos até um DVD totalmente gravado nesse formato em maio de 2008, que no entanto não foi lançado por motivos de troca de vocalista. Durante todos esses anos exercitamos o set - e repetindo, fomos influenciados por ele em várias passagens do disco Infallible de 2009. "Based on a True Story" é um bom exemplo disso, além de "Time to Forget" e "Solitary Mind".
O ano de 2011 chegou e recebemos uma proposta de gravação de um registro nesses moldes, por volta do mês de março. O FX Estúdio abriu as portas para que nós gravássemos o disco, coisa que para qual, dependíamos apenas e tão apenas da nossa disponibilidade. Uma ótima ótima oportunidade de darmos sequência a Infallible Tour antes de lançarmos o próximo CD e a próxima tour em 2012. Se a história fosse simples assim, não seria tão longa.

Problemas

Nós tínhamos agenda praticamente lotada até julho de 2011. Em alguns intervalos poderíamos começar a gravar e assim foi decidido. Porém, um problema não saia da nossa cabeça. Por volta de abril, o Humberto começou a demonstrar a sua insatisfação com alguns problemas particulares. Como estávamos sempre na correria, conversávamos sempre sobre isso e demos um jeito de ir levando, "empurrando com a barriga". A corda foi esticando e chegou em um momento que tivemos que parar tudo e tomar decisões.
Final de maio nos reunimos para fazer a pré-produção do disco. Refizemos vários arranjos e o Aquiles imediatamente começou a gravar, seguido por mim. Quando se lança um CD, as pessoas em sua maioria não sabem o que isso implica, mas com certeza devem imaginar; envolve uma quantidade de pessoas capacitadas. Engenheiros de som, roadies, produção, horas e mais horas de gravações e muito trabalho. É um trabalho que envolve comprometimento e muito dinheiro, mesmo que às vezes em parceria com alguém. Ou seja, a sua responsabilidade é muito grande!
Saímos para tocar no sul no início do mês de junho. E no dia 12 de junho, na cidade de Osório, após o show nos reunimos e decidimos, em comum acordo, que o Humberto deveria voltar para Manaus depois do nosso último compromisso que teríamos no dia 22 de julho, no SESC Pompéia. A decisão levou em consideração que ele deveria procurar a sua felicidade e nós respeitá-lo quanto aos seus problemas. Foi impactante! O Aquiles até hoje me cobra internamente que eu escolhi todos os vocalistas da banda e sempre acontece alguma coisa e as pessoas acabam indo embora. É claro que eu levo isso na brincadeira, porque eu vejo isso de outra maneira. Eu tenho muita coragem de indicar o cara porque é o melhor para a minha banda no momento. Não há como saber se a pessoa vai apresentar problemas depois, se irá embora, se irá abandonar o barco ou se irá ficar eternamente com a gente. A única certeza que tenho é que nós quatro, que tocamos juntos há cerca de 12 anos, estamos aí, sempre em frente e avante! Eu sei que ninguém tem culpa de nada, as coisas acontecem e as pessoas pensam no que é melhor para elas. Em alguns momentos eu sou bastante rude porque não consigo entender, mas não há o que fazer, somente agradecer o tempo que estiveram conosco e torcer para que as etapas amargas sejam breves para os dois lados.

Gravar com quem?

Enquanto o Humberto cumpria suas datas conosco, quebramos as cabeças pensando em quem poderia gravar o CD e como que conduziríamos isso junto aos nossos fãs, já bastante machucados com as nossas intensas troca de vocalistas. Estive em casa durante o mês de junho, quando o Daniel Fernandes e o Rodrigo Batata, nosso engenheiro de som e técnico de bateria, mostraram-me um clip de uma música chamada "Neblim". Uma orquestra e o Eloy Casagrande na bateria e uma grande voz, que até então era desconhecida para mim: André Leite. Chamei o Aquiles e mostrei a imagem. Dois dias depois, o Aquiles entrou em contato com o André e começou a explicar a situação a ele. Já estávamos no início do mês de julho e a gravação de violão e teclados já haviam começado. A situação não era confortável para ninguém.
Durante muitos shows vivemos uma situação de total insegurança. Um vocalista em cima do palco com prazo para ir embora e resolver seus problemas, sem prazo para voltar e um outro no estúdio, prestes a gravar um disco novo com o Hangar. Confesso que o mês de julho foi complicado.

Opinião

Quando eu tinha entre 14 e 15 anos, lembro-me de não entender o porque que o Deep Purple tinha trocado de vocalista e baixista. Alguns discos tinham o Gillan e o Glover, outros o Coverdale e o Glenn Hughes. Eu sei que o fã gosta de estabilidade. Na Europa isso é mais comum. O senso de profissionalismo é muito mais aguçado e as trocas nas bandas são vistas como trabalho e nada mais. Aqui, no país "caliente", a coisa é diferente. As trocas ferem o emocional do cara que gosta da banda, sente-se traído. Como se a banda fosse uma fraude ou qualquer coisa enganosa.
É nessa hora que temos que recorrer ao exercício de pensamento ao contrário. Tentar entender o que a banda passa nesse momento é essencial. Quando aceitamos um novo elemento no grupo temos a sensação de que desta vez acertamos e não há nenhum indicativo de que alguma coisa está errada. A convivência, o tempo , a batalha do dia-a-dia é que fazem a diferença. Se você não está preparado para isso, a fraqueza que é uma inimiga em qualquer circunstância pode ser mortal e desfazer o seu sonho. O sonho da continuidade, no nosso caso, mais uma vez esteve por um fio. Eu posso respeitar o momento do Humberto e dos nossos fãs, mas também tenho que respeitar o momento da banda, das pessoas que estão aqui do outro lado, batalhando, trabalhando, dedicando horas e horas para que o Hangar avance sempre mais. Não há como se esquecer disso, pois aqui só há espaço para a valentia e não antônimos pequenos!

But plugged in

Durante o mês de julho seguimos com as gravações do Acoustic. Os arranjos e os timbres ficaram excepcionais! O baixo para mim, claro, foi um caso a parte. Sendo um disco acústico ele ganhou destaque com linhas já antigas, algumas novas e outras tantas concebidas forçosamente durante a gravação, indo ao encontro dos novos arranjos de bateria.
Conheci o André e fiquei muito impressionado com sua humildade, muito mais com sua afinação e também com a sua postura como artista; muito pró-ativo. O Aquiles passou quase o mês todo envolvido com a produção, mixagem, masterização, capa, fotos etc. Junto com um time de profissionais de respeito como: o Théo Vieira ( mixagem, arranjos, voz ), Vanessa Doi ( direção de arte do encarte e capa), Renan Facciolo ( fotos ), Ricardo Aquino ( técnico de gravação), Durval da Gama ( FX Estúdio), Natália Lett ( fotos ), Arthur Bevilacqua e Pirata ( making offs ), João Duarte e Marina Dickinson ( sites, artes e myspaces ), Daniel Piquê ( direção de arte dos vídeos ), Heros Trench ( masterização), além de pessoas próximas como a Sônia Paha e sua equipe da Lady Snake, que abraçou esse projeto conosco. São mais de 20 pessoas em sintonia! E é essa junção de ideias e pessoas movidas por um objetivo, que levaram a banda adiante! Foi um alento importante para aquele momento. Passamos a canalizar positividade em volta do processo e de uma data: 10 de setembro.

Última etapa

Na última semana de agosto nos reunimos para a última etapa do CD. Gravamos em São Paulo, no estúdio FX o clip de uma música antiga nossa e que será lançada até o final do ano. Daniel Piquê fez um trabalho muito bom com o pouco espaço que tínhamos. Dois dias depois estávamos em São Sebastião do Paraíso, no estúdio do Daniel, onde registramos o clip da música inédita do disco "Haunted by your Ghosts".
"Haunted" nasceu de uma ideia pré-concebida pelo Aquiles que imediatamente musiquei no baixo, seguido pela introdução do Fábio e de um verso com ideias do Theo Vieira e do Martinez. Um trabalho em equipe! Tratando-se de uma música sem guitarra com distorção, o recado foi dado. Ela pulsa para cima, que era o que precisávamos para aquele momento.

Futuro

O futuro é o aqui e agora!
Disco novo e vocalista novo!
Nosso trabalho está aí e foi feito de coração. Em 90% dos casos, as pessoas não tem ideia do que acontece dentro de uma banda, portanto fica fácil julgar. Um diário só é escrito após as coisas acontecerem e a vida é cheia de etapas. Nada acontece por acaso. Temos que passar por um momento que nas nossas cabeças não é de incertezas, mas sim de muitas certezas! O que fazemos sempre foi pela banda e pelo melhor para quem gosta dela. Algumas coisas fogem do nosso controle, no entanto se isso acontece, significam que são para o melhor. Não há muros que não possam ser contornados. Nesse curto espaço de tempo nos aproximamos mais ainda e ouvindo a letra de "Haunted by your Ghosts", percebo algumas palavras que eu mesmo teria dito, mas que acabaram saindo da cabeça e dos dedos de Aquiles em seu notebook, com uma sinergia que eu nunca havia experimentado :

"I will never let you play with my life
Just take a breathe and start again
A brand new day, never the same
There is no time to cry
When you learn to lose
There are no limits in your way
When you share a dream
you don't look back on yesterday..."
Se você entendeu isso, venha conosco! Pois o trem não pode parar e ele anda a alta velocidade!

NM

Revisão e pitacos nos "portugueses", rsrsrs, Van Doi, Jo Frota e Fábio Laguna


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Diário do Hangar - Julho 2011












Goiânia e Jander Tattoo

Começamos nossa aventura de julho na cidade de Goiânia. Já havia estado em Goiânia por quatro vezes, sempre a convite do Pedro, da Hiccup Produções. Nas ocasiões anteriores, acompanhei o Aquiles em dois workshops e fizemos dois shows completos do Hangar no espaço Centro Cultural Martim Cererê. Desta vez fomos convidados para tocar na sétima edição do Tattoo Rock Fest, um festival que reúne tatuagem e muito rock´n´roll. Nosso show seria no sábado e chegamos a Goiânia na sexta-feira, com o intuito de aproveitarmos o dia inteiro para "marcarmos" nosso corpo antes do festival, já que durante ou no dia do evento seria impossível. Essa história começou há cerca de dois anos atrás, quando o Pedro apresentou o Jander Rodrigues ao Aquiles. Jander é um dos mais hábeis tatuadores brasileiros e tem um trabalho reconhecido e elogiado por todos. Sua especialidade é o biomecânico e o Aquiles acabou fazendo uma tattoo com Jander, que passou a fazer parte do nosso grupo de apoiadores. Chegamos ao hotel por volta das 8 da manhã. Após um café e um banho, seguimos em dois táxis para o Jander Tattoo Estúdio. Localizado no décimo andar de um elegante prédio em zona nobre da capital Goiânia, o estúdio é enorme, com várias salas. “Confesso que fiquei meio deslocado, afinal, não sabia como funcionaria o esquema de ‘tatuagem coletiva”, pois éramos cinco, eu, Fábio, Aquiles, Martinez e o Daniel Fernandes, nosso técnico de som, já que o Humberto chegaria à cidade somente no final da tarde e acabou perdendo a sessão. O Jander, acompanhado pela Ravana Souza, veio nos receber muito educadamente deu as boas vindas. O Aquiles já entrou na sala de tatuagem enquanto os demais ficaram na sala de espera conversando com as outras pessoas da equipe que iam chegando e se apresentando. Conforme decidíamos o que iriamos tatuar, a Ravana indicava a pessoa certa para o trabalho. Faziam parte da equipe a Rejane Olig, o Wilson Junior, a Lays Alencar, a Priscilla Lima e a Paula Dame. O Fábio foi o primeiro a falar em algum desenho estilo "maori extraterrestre" e prontamente o Wilson Junior se apresentou para o trampo. Naquela confusão de pessoas, ficamos discutindo sobre os desenhos e a Rejane Olig me ajudou, pesquisando algumas opções na net. Achamos o desenho e a Ravana e a Rejane me disseram que eu deveria esperar a Virgínia Burlesque, outra tatuadora que estava vindo para ajudar no trabalho.

Martinez

Enquanto eu esperava a Virgínia chegar, fiquei batendo papo com o Daniel e o Rodrigo. Fiquei só olhando de longe o Martinez que, bem como de seu costume, não se decidia quanto a sua tatuagem, ou seja, pra variar, até mesmo no seu desenho imperava a "confusão". Ele queria alguma coisa "old school", e foi a Paula Dame que chegou e tentou entender o que ele imaginava. O desenho era um rosto de uma mulher misturado com guitarra, violão e mais alguns detalhes... Até a "palheta do destino está lá"... Eu olhava e ficava com pena da Paula, que tentava dar o máximo para desenhar todos os detalhes...

O Daniel começou a procurar o seu desenho junto com a Rejane e já era quase meio dia quando finalmente a Virgínia Burlesque chegou. Confesso que eu até estava pensando em desistir. Não estava muito a fim de sentir dor não. Mas logo percebi que a Virginia era uma pessoa bem positiva e me deixou bem à vontade quanto ao desenho. Ela prontamente me ouviu e saiu para desenhar o que seria a idéia dela para a "Ankh" que eu queria tatuar. As minhas duas tatuagens anteriores são um "Yin/Yang" estilizado com os elementos água, ar, terra e fogo e representa o "equilíbrio". A segunda é o "H", símbolo do Hangar e agora a Ankh, que se lê "anaqui" e significa o "símbolo da vida". Tento manter um significado para as minhas tattoos já que elas irão me acompanhar para sempre. Nada contra quem queira tatuar golfinhos, estrelas do mar, cascudos e outras coisas... (huahuahu, piada interna), afinal estes desenhos também devem significar alguma coisa importante para a pessoa. No início da tarde fui para a mesma sala onde estava o Fábio com o Wilson Junior e começamos a sessão. Com certeza a apreensão é grande porque não podemos dizer que "não dói". Realmente a dor, embora suportável, existe. Difícil esquecer a sensação do "álcool" entrando na sua pele depois de duas horas de tatuagem... hauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. Enquanto o Fábio, Aquiles, o Daniel e eu já estávamos nas salas "recebendo tinta", acompanhava de longe a Paula ainda tentando terminar o desenho do Eduardo. Enquanto a tarde passava divertíamos com as nossas "dores". Como o meu desenho aparentemente era o mais simples e menor, ajudado pela paciência da minha tatuadora, pude circular pelas salas várias vezes apreciando as caras nada agradáveis de todos... Tatuar é um ritual. A concentração do tatuador na hora em que ele exerce a sua profissão é notória. Brincávamos nervosamente com nossas dores, mas os profissionais estavam lá focados. Às 16hh30 a Virgínia terminou minha tattoo. O Aquiles não aguentava mais devido ao tamanho e ao local escolhido. O Fábio ainda iria ficar até às 23hs00, enquanto o Daniel já estava no final e o Martinez... Bem, o Martinez estava começando a primeira parte do seu desenho.

As 17hs seguimos para a loja da Harmonia Musical onde muito doloridos recebemos vários fãs e amigos como a Thais Sena que largou o trabalho no Santander pra ir até a Harmonia, rs, e a Layanne Cristine, nossa grande amiga de "twitter" e o Tiago Miranda, nosso velho conhecido e amigo. Às 19hs, enquanto alguns voltavam para o hotel, voltei junto com o Fábio, o Martinez e o Daniel para o Jander onde eles tentariam completar as suas tattoos. Saímos de lá às 23hs e apenas o Martinez e a Paula não conseguiram terminar, devido a complexidade do desenho "articulado" por eles...

Foi um dia cansativo, mas produtivo. Tive mais respeito ainda por estes profissionais que desenham na sua pele. Um grande abraço ao Jander, Ravana, Lays, Rejane, Wilson, Priscilla, Paula e a "fada" Virgínia pela paciência. Quem quiser conferir o trabalho deles é só acessar www.jandertattoo.com

Tattoo Rock Fest

No outro dia, sábado, dia 02, o pessoal da equipe saiu cedo para montar nosso equipamento. Enquanto isso eu procurava uma farmácia que vendesse a pomada cicatrizante apropriada para os nossos desenhos. Depois do almoço fomos para o local do show. Um lindo e enorme local chamado Centro Cultural Oscar Niemayer, com um palco, som e estrutura incríveis. Na parte de fora do teatro ficavam os bares e a exposição com vários stands de tatuadores de todo o Brasil, além de roupas, máquinas, livros, tintas e afins. Era uma Expo Tattoo, na melhor concepção das palavras. Tentei acompanhar tudo, mas tive que evitar aquela demonstração em que as pessoas ficam penduradas por ganchos a alguns metros de altura. Foi demais pra mim, mas respeito os caras que fazem.

O show foi muito bom. Estávamos com uma energia boa e o clima de palco, som, luz e público ajudaram bastante. Encontramos novamente nossos amigos Tiago Miranda, Murilo Morais e Thais Sena. O Aquiles fez uma justa homenagem a todos os tatuadores que estavam presentes, em especial aos da equipe do Jander que foram prestigiar o evento e nosso show e encerramos a noite comemorando bastante e carregando nosso ônibus para a volta direto a São Paulo. Foi a quinta vez em Goiânia, mas pelo jeito vamos voltar rápido. A cada desenho você quer mais um na sua pele...

São José dos Campos

Dia 13, "Dia Mundial do Rock", foi vez de irmos a São José dos Campos, cidade próxima a São Paulo. Como já disse em outros diários, tocar no SESC sempre é bom. É uma garantia de você ser bem recebido, qualidade de luz e som. Chegamos e fomos recebidos pela Suely Vieira, responsável pela contratação e programação musical do SESC da cidade. Ela faz um trabalho invejável. Muitos artistas nacionais já passaram pela cidade. Apenas dez dias antes o Flávio Venturini tinha realizado um show ali. O local escolhido para o show foi o Ginásio do SESC, ou seja, um lugar grande, o que nos deixou apreensivos. Seria um mais um "Anvil Day"? Passamos o som e pontualmente às 20hs00 nos dirigimos aos camarins. O show estava marcado para as 20h30 e eu sempre costumo ficar olhando o público. Era noite de quarta-feira com jogo do Brasil na TV, e mesmo assim mais de 400 pessoas compareceram e curtiram o show! Chegar em uma cidade que você nunca tocou e olhar diversas pessoas cantando as músicas da banda é muito gratificante. Sinal de que estamos crescendo como banda. No final batemos papo com todos e nos divertimos com a presença de vários amigos, como o João Duarte e a Marina, que saíram de São Paulo especialmente para o show, o vocalista Lean Van Hanna e o tecladista e fotógrafo William Vankar. Esperamos em breve voltar à região com muitas novidades.

Paraguaçu Paulista

Saímos de São José dos Campos por volta das dez da manhã e seguimos direto para Paraguaçu Paulista. Foi uma viagem longa onde mais uma vez não faltaram os diversos (mesmo!!!) capítulos de "Prison Break", novamente. Lá pelas duas da tarde resolvemos parar para almoçar. O problema que a partir dessa hora é difícil arrumar um local na estrada. Estávamos no meio do nada e paramos em um local que vende artigos coloniais, mel, própolis etc... mas que servia almoço em marmitas porque o restaurante com ar condicionado já estava fechado. Não tivemos dúvida, banda e equipe, cada um pegou uma marmita e almoçou no pátio do local. Os dez bichos comendo sentados no chão em meio às pedras, com garfos e facas de plástico no maior esquema "rural brothers of metal".

Chegamos a Paraguaçu na noite de quinta-feira, um dia antes do show. Fomos recebidos pelo Michel Inzaghi que nos levou direto ao hotel. Conheci o Michel e o pessoal de Paraguaçu quando tocamos em Presidente Prudente em maio, na Virada Cultural. Na ocasião ele me disse que nunca uma banda de metal esteve em Paraguaçu e que um dos sonhos dele era levar o Hangar.

Descansamos bastante e no outro dia cedo a equipe foi montar o equipamento em um lindo teatro na cidade. Ocupamos o dia com afazeres contratuais nos dois cartórios de Paraguaçu, o que rendeu ótimos momentos cômicos. O Aquiles não resistiu a uma placa que dizia "Protesto" e começou a discursar sobre alguma coisa que ele não gostava ou estava insatisfeito... Em cidade pequena, quando chega gente de fora todos ficam sabendo, então a confusão e o bom humor tomaram conta de repartições até então sérias como os cartórios de registros de Paraguaçu Paulista. A noite de sexta estava agradável e fizemos um show muito bom com a presença de muita gente da cidade e de cidades vizinhas como o Pedro Bertasso e a Vivian que vieram de Presidente Prudente para assistir o show e fazer uma entrevista exclusiva com a banda; o Cadu Newsted e o pessoal da TRZ Metal Tour, de Marília. Aliás, o Cadu tá nos enrolando até hoje... Cadê o show de Marília, Cadu? Parabéns ao Michel Inzaghi, um garoto de apenas 21 anos e com uma seriedade e profissionalismo a serem destacados. Não importa a idade ou a falta de experiência, quando a pessoa quer fazer ela faz e ponto final. Michel é uma prova disso. Saímos de Paraguaçu na manhã e seguimos rumo a São Paulo.

SESC Pompéia

Com o adiamento do Araraquara Rock fiquei uma semana na cidade de São Paulo e o Martinez foi para Mococa com o Fábio. O Aquiles está com uma nova sala de aula no Instituto Fabiano Manhas, na zona norte da capital, e aproveitamos para tocar um pouco e ajeitar algumas coisas por lá. Nesta semana recebemos o Inside Your Soul, que não tinha sido relançado desde a sua origem em 2001. Dez anos depois recebê-lo ali, novo, foi emocionante. Um grande período e um grande disco. Sempre falo que a música Inside Your Soul tem o baixo mais difícil de ser tocado em todas as músicas do Hangar. Tocar em São Paulo sempre traz um pouco de preocupação. Show na sexta feira, cidade grande, frio, etc. Mas como sempre tivemos uma resposta de público excelente com a casa cheia. É uma ótima oportunidade de rever os amigos de sempre além dos novos que sempre aparecem. Como sempre a Marina Dickinson e o João Duarte nos acompanharam. Nossa grande diretora de arte Vanessa Doi e a Carol Angeli. O César Pereira e sua mãe que nos acompanha sempre. As irmãs Pry e Damaris, a Simara Fiorelini e o Junior e a Sanedi. Tivemos também o staff da Lady Snake em peso com a Sônia Paha, a Aninha Soncin e a Simone Borges e o Ralf Carlos, todos muito felizes e simpáticos. O grande batera Fabiano Manhas também esteve presente. No show o, Théo Vieira, nosso grande parceiro, nos acompanhou com o violão em quatro músicas.

O final da noite se aproximou e na madrugada fria de São Paulo havia uma sensação de despedida. Embora estejamos sempre em contato sabíamos que os próximos shows somente aconteceriam em setembro. Ao mesmo tempo as novidades e as expectativas para o segundo semestre não saíam das nossas mentes. Plantar, semear, colher fazem parte da vida desta banda... A busca continua e as novidades acontecem. Aproveito pra lembrar, mas de forma um pouco diferente, o que diz a canção daquela banda irlandesa/americana: "Wake me up when september BEGINS..."

Abraço a todos... Até o próximo episódio.

Nando Mello

Revisão e pitacos Fábio Laguna

Fotos Tatoos Mello e Aquiles by Virgínia Burlesque e Jander Rodrigues

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Músicas que marcaram : Capítulo cinco - With or Whitout You - U2



Década de oitenta, Tv Cultura ou Piratini como chamava aqui no sul. Rádio Ipanema FM. Madonna e Michael Jackson se preparavam para dominar a década com seu pop. Na distante Irlanda em uma cidade chamada Dublin nascia uma banda diferente. Com uma economia e sutileza harmonica ímpar e um talento raro para escrever melodias marcantes, o U2 apareceu para dominar o pop e transgredir a sua barreira com muito rock de uma maneira como nunca se tinha visto antes. Nos quatro primeiros discos lançados no ínicio da década e que demoraram um pouco para chegar em terras brasileiras a qualidade já estava presente. Músicas como "I Will Follow", "Gloria", "New Years Day" e "Sunday Bloody Sunday" juntaram-se a "Pride " do disco "The Unforgettable Fire" e nos mostravam que aquela banda estava predestinada a se tornar se não a maior , uma das maiores. Em 87 veio o disco definitivo. Um marco em toda a história da música rock , pop ou qualquer que seja. "The Joshua Tree". Com músicas como "Where The Streets Have no Name", "I Still Havent Found What I´m Looking For" e "Bullet the Blue Sky". Foi com"With or Whitout You" que o U2 escreveu uma página na história da música. Com uma letra simples que se firmou no contexto geral do album. Uma mensagem que mistura angústias típicas irlandesas como religião e política mundial da época e a empatia e antipatia pela América e sua vastidão territorial e seus lados ambíguos pessoais e materialistas que seriam complementados pelo album seguinte, "Rattle and Hum" lançado um ano após. "The Joshua Tree" levou o U2 ao patamar de super banda que nos acostumamos até os dias atuais.

With Or Without You

See the stone set in your eyes
See the thorn twist in your side
I wait for you

Sleight of hand and twist of fate
On a bed of nails she makes me wait
And I wait without you

With or without you

Through the storm we reach the shore
You gave it all but I want more
And I'm waiting for you

With or without you
I can't live
With or without you

And you give yourself away
And you give yourself away
And you give
And you give yourself away
My hands are tied, my body bruised
She got me with
Nothing to win and
Nothing left to lose

And you give yourself away
And you give yourself away
And you give
And you give
And you give yourself away

With or without you
With or without you
I can't live
With or without you

domingo, 31 de julho de 2011

Pra quem gosta de futebol...parte I....Leeds United - Inglaterra 1965/1975


Quem me conhece sabe da minha paixão por futebol. Não somente com o meu time, Internacional, mas a história do futebol. Clubes, seleções, campeonatos. Tenho muita coisa guardada em arquivos e revistas. Nos anos 80 era quase impossível conseguir informações precisas sobre futebol de outros países. Com o passar dos anos e a chegada da internet consegui ter tudo que sempre procurava em revistas velhas durante os anos 80. Aquela coisa de criança mesmo. Quanto mais difícil de ter mais eu queria. Futebol nacional era acessível, mas o de fora era muito complicado.Nomes como Real Madrid, Torino, Tottenham, Independiente, Barcelona, Ajax me fascinavam..

Esta série começa falando de um time que atualmente não está nem na primeira divisão de seu país. A minha paixão pela história dele começou quando comprei uma velha revista Placar do mes de junho de 1975 em um "sebo" de Porto Alegre nos longinquos anos 80. Uma matéria me chamou atenção. "Final da Copa Européia de Futebol". Escolhi este clube por ele estar na contra mão de tudo que passou a ser o futebol depois de 1992, a data definida para a "nova era" do futebol como conhecemos atualmente.
Leeds é uma cidade ao norte da Inglaterra com cerca de 400.000 habitantes. Nesta cidade apareceu um dos maiores times ingleses de todos os tempos, o Leeds United A.F.C.. Durante cerca de 10 anos , de 1965 até 1975, o Leeds dominou o cenário do futebol inglês usando praticamente a mesma escalação. Era o tempo em que os jogadores jogavam com o coração e ficar dez anos em um mesmo clube não era incomum. Com a chegada do youtube pude comprovar o quanto o time realmente era bom. O que tinha apenas lido pude ver em ação. Comandados pelo técnico Don Revie, o Leeds United subiu para a primeira divisão em 1965. Don Revie fez do seu time uma família, o que por vezes o levou a ser muito criticado pelo espírito guerreiro e belicoso da equipe.
O Leeds foi campeão ingles em 1969 e 1975 e vice campeão em 1965, 1966, 1970, 1971 e 1972. Venceu a Copa da Inglaterra em 1972 e foi vice em 1965, 1970 e 1973. Venceu a League Cup em 1968 e a Charity Shield em 1969. Ganhou a Copa da UEFA em 1968 e 1971 e foi vice em 1967. Foi vice campeão da Recopa Europeia em 1973 e vice campeão da Europa em 1975 em uma final contra o Bayern de Munique, onde até hoje se contesta a atuação do juiz na partida, claramente favorecendo aos alemães.
O time base que jogou junto por praticamente dez anos era formado pelos goleiros Gary Sprake (62/73), títular até 1973 e David Harvey (65/80), o lateral direito era Paul Reaney(62/78) e o esquerdo Paul Madelay (63/80). A zaga era formada por Jack Charlton (52/73) e Norman Hunter (62/76). Em 1974 Charlton foi substituído por Frank Gray (72/79). O reserva imediato da defesa era Terry Cooper (62/75) . O meio de campo era formado pela lenda escocesa Billy Bremner (59/76), Allan Clark (69/78) e Johnny Giles (63/75). O ataque com Peter Lorimer (63/79) na direita e Eddie Gray (65/83) na esquerda. Os centroavantes foram Mick Jones (67/75) e Joe Jordan (70/75). Entre parenteses estão os anos que os jogadores ficaram no clube. Reaney, Charlton, Hunter, Madelay e Bremner jogaram mais de 700 partidas pelo Leeds. Lorimer mais de 600. Sprake, Giles e Gray mais de 500. Números impensáveis nos dias atuais.
O elenco reduzido do Leeds foi fundamental para a união da equipe , mas também fez com que o time perdesse muitas decisões importantes, fazendo-o vice campeão inúmeras vezes.
Hoje o clube amarga a segunda divisão da Inglaterra , mas a marca ficou para sempre e todos no mundo do futebol aguardam ansiosos a volta do Leeds a primeira divisão onde realmente é o seu lugar. Eram outros tempos, quando os jogadores ficavam dez anos em seus clubes e amavam a sua camiseta, mas isso já passou, fica a história de um grande time de futebol. Confira no youtube os lances e as partidas do Leeds United desta época.
Para quem quiser conhecer um pouco da história deste periodo foi lançado em 2009 um filme chamado "The Damned United" estrelado por Michael Sheen. Conta a história do Leeds no ano de 1974 quando Don Revie deixa o clube para comandar a seleção inglesa e assume em seu lugar o técnico Brian Clough. A "família Leeds" não aceita a troca e boicota Brian que deixa o clube e ruma para o Nottingham Forest onde seria campeão ingles e bi campeão da Europa...bom mas esse é um outro time, um outro momento e um outro capítulo...
abs
NM

Fotos..Leeds United Campeão Ingles 1974

A Estética do Frio...as razões de Vítor Ramil...


Resolvi transcrever partes do texto de Vítor Ramil chamado "A Estética do Frio", uma visão particular sobre a vivência e características tipicas do nosso estado gaúcho. O que me motivou a esta transcrição foi uma frase do nosso motorista na última viagem feita pelo Hangar aqui para as terras gaudérias. Depois de uma semana em Porto Alegre e Gravataí, o Telles, já na saída para a BR 101 que leva ao norte do Rio Grande me falou o seguinte: "Ainda bem que estamos indo embora , não aguento mais de saudades do Brasil." A frase saiu muito naturalmente e eu achei muito engraçado a sua observação. Lógico que moramos todos no mesmo país , mas em cada região existem características fortes e marcantes. As mais lembradas por estas terra e que marca o vivente que aqui nasce sempre foi o frio e uma espécie de sensação de isolamento do restante da nação. Geograficamente o primeiro ou o último estado do Brasil, a sensação de estar isolado do resto é evidente, o que faz com que exista uma super valorização do contexto interno do estado. É comum cantarmos o hino do Estado em competições esportivas ou comemorar o 20 de setembro, data da Revolução Farroupilha e que proporcionalmente equivale ao 07 de setembro nacional. As vestimentas típicas são comuns, o chimarrão a bebida estadual e cada cidade conforme o seu tamanho mantem vários CTGs ou Centro de Tradições Gaúchas. Viajando muito pelo Brasil constato que cada região tem as suas características e tradições assim como no Rio Grande, variando de intensidade de estado para estado. O que não podemos negar é que aqui a intensidade e o orgulho da terra é grande e mantem-se em constante movimento através da música e das tradições.

Segue abaixo o texto sério e ao mesmo tempo bem humorado do grande Vítor Ramil, também conhecido como irmão do Kleiton e do Kledir.

NM

*Foto "Gaúcho na geada"

"A Estética do Frio.

Eu me chamo Vitor Ramil. Sou brasileiro, compositor, cantor e escritor. Venho do estado do Rio Grande do Sul, capital Porto Alegre, extremo sul do Brasil, fronteira com Uruguai e Argentina, região de clima temperado desse imenso país mundialmente conhecido como tropical.

A área territorial do Rio Grande do Sul equivale, aproximadamente, à da Itália. Sua gente, os rio-grandenses, também conhecidos como gaúchos, aparentam sentir-se os mais diferentes em um país feito de diferenças. Isso deve-se, em grande parte, à sua condição de habitantes de uma importante zona de fronteira, com características únicas, a qual formaram e pela qual foram formados (o estado possui duas fronteiras com países estrangeiros de língua espanhola); à forte presença do imigrante europeu, principalmente italiano e alemão, nesse processo de formação; ao clima de estações bem definidas e ao seu passado de guerras e revoluções, como os embates durante três séculos entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha por aquilo que é hoje nosso território e a chamada Revolução Farroupilha (1835–1845), que chegou a separar o estado do resto do Brasil, proclamando a República Rio-Grandense.

Se no passado o estado antecipou-se em ser uma república durante a vigência do regime monarquista no país, no cenário político nacional desta virada de século, marcado pela desigualdade social, a capital Porto Alegre tornou-se referência internacional como modelo bem sucedido de política com participação popular.

Vou falar o mais brevemente possível sobre a minha experiência como artista no Rio Grande do Sul e no Brasil. É importante começar dizendo que essa conferência é uma exposição de minhas reflexões acerca de minha própria produção artística e seu contexto cultural e social. Do tema, a estética do frio, não se pretende, em hipótese alguma, uma formulação normativa. As idéias aqui expostas são fruto da minha intuição e do que minha experiência reconhece como senso comum. A extensão do assunto e o pouco tempo para expô-lo não me permitem desenvolver suficientemente alguns pontos. Mas convido a todos para um debate após esta exposição, para que possamos retomar o que for de seu interesse e compartilhar novas reflexões.

Nasci no interior, mais ao Sul do que Porto Alegre, na cidade de Pelotas, que em alguns dos meus textos e canções aparece com seu nome em anagrama: Satolep. Minha vida profissional começou e se desenvolveu em Porto Alegre. No entanto gravei quase todos os meus discos no Rio de Janeiro, centro do país e do mercado da música popular brasileira. A exceção é o meu mais recente CD, Tambong, gravado em Buenos Aires, Argentina.*

Aos dezoito anos gravei meu primeiro disco, Estrela, Estrela; aos vinte e quatro troquei Porto Alegre pelo Rio de Janeiro, onde morei por cinco anos. Vivi esse período no bairro de Copacabana, praia símbolo do verão brasileiro, onde, apesar do clima de mudanças discretas entre as estações e do predomínio do calor, mantive sempre alguns hábitos do frio, como o chimarrão, um tradicional chá quente de erva-mate.

Em Copacabana, num dia muito quente do mês de junho (justamente quando começa o inverno no Brasil), eu tomava meu chimarrão e assistia, em um jornal na televisão, à transmissão de cenas de um carnaval fora de época, no Nordeste, região em que faz calor o ano inteiro (o carnaval brasileiro é uma festa de rua que acontece em todo o país durante o verão). As imagens mostravam um caminhão de som que reunia à sua volta milhares de pessoas seminuas a dançar, cantar e suar sob sol forte. O âncora do jornal, falando para todo o país de um estúdio localizado ali no Rio de Janeiro, descrevia a cena com um tom de absoluta normalidade, como se fosse natural que aquilo acontecesse em junho, como se o fato fizesse parte do dia-a-dia de todo brasileiro. Embora eu estivesse igualmente seminu e suando por causa do calor, não podia me imaginar atrás daquele caminhão como aquela gente, não me sentia motivado pelo espírito daquela festa.

A seguir, o mesmo telejornal mostrou a chegada do frio no Sul, antecipando um inverno rigoroso. Vi o Rio Grande do Sul: campos cobertos de geada na luz branca da manhã, crianças escrevendo com o dedo no gelo depositado nos vidros dos carros, homens de poncho (um grosso agasalho de lã) andando de bicicleta, águas congeladas, a expectativa de neve na serra, um chimarrão fumegando tal qual o meu. Seminu e suando, reconheci imediatamente o lugar como meu, e desejei estar não em Copacabana, mas num avião rumo a Porto Alegre. O âncora, por sua vez, adotara um tom de quase incredulidade, descrevendo aquelas imagens do frio como se retratassem outro país (chegou a defini-las como de “clima europeu”).

Aquilo tudo causou em mim um forte estranhamento. Eu me senti isolado, distante. Não do Rio Grande do Sul, que estava mesmo muito longe dali, mas distante de Copacabana, do Rio de Janeiro, do centro do país. Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil. Eu era a comprovação de algo do qual não me julgara, até então, um exemplo: o sentimento de não ser ou não querer ser brasileiro tantas vezes manifesto pelos rio-grandenses, seja em situações triviais do cotidiano, seja na organização de movimentos separatistas.

A sério ou de brincadeira, sempre se falou muito no Rio Grande do Sul em sermos um “país à parte” (nossa bandeira atual é a mesma de quando os revolucionários farroupilhas separaram o estado do resto do país. Vale no entanto dizer que, apesar da imagem que ficou para a história, os farroupilhas não eram separatistas no início de seu movimento). Por ter sempre acreditado que entre falar e sentir havia uma distância enorme, a realidade do meu sentimento era agora perturbadora. Significava que eu não precisava sair à rua pregando o separatismo: eu já estava, de fato, separado do Brasil.

Naquela época, passagem dos anos 80 para os 90, esse tema do “país à parte” estava mais uma vez em voga, e não se poderia encontrar em outra região do país, como ainda hoje não se pode, um povo mais ocupado em questionar a própria identidade que o riograndense. Com isso, o gauchismo e os movimentos separatistas estavam em alta, estes últimos a reboque dos freqüentes protestos de políticos contra o governo federal pela precária situação econômica do estado, manifestações que, muitas vezes, traziam à tona a retórica dos revolucionários do século XIX.

Abro parêntese para comentar o que chamei de gauchismo.

É difícil que as regiões se conheçam bem em um país tão grande como o Brasil. Acabam sempre lançando mão de estereótipos e fixando uma imagem imprecisa umas das outras. A mídia nacional, situada no centro geográfico, enfrenta a mesma dificuldade e, ao tentar dar conta da diversidade, adota os estereótipos regionais, o que termina por reforçá-los. Neste processo, distorções muitas vezes se estabelecem como definições de cores locais.

A palavra gaúcho é, hoje em dia, um gentílico que designa os habitantes do Rio Grande do Sul, e o estereótipo do gaúcho é um dos mais difundidos nacionalmente, se não o mais difundido: misto de homem do campo e herói, que o escritor brasileiro Euclides da Cunha, em seu clássico Os Sertões, definiu como essa existência-quase-romanesca. Popularmente, é visto como valente, machista, bravateiro; um tipo que está sempre vestido a caráter e às voltas com o cavalo, o churrasco e o chimarrão.

Originalmente, gaúcho é o rio-grandense do interior, que trabalha a cavalo em fazendas de criação de gado, o mesmo personagem que, no passado, participou das guerras e revoluções em que o estado se envolveu. É um tipo comum aos vizinhos Uruguai e Argentina, com a diferença de que nesses países gaucho (gaúcho) é simplesmente o homem do campo, nunca um gentílico que designe os habitantes dos centros urbanos. É significativo que, no variado leque de tipos regionais brasileiros, esse mesmo gaúcho tenha se estabelecido como marca de representação de todos os rio-grandenses, justamente ele, que nos vincula aos países vizinhos, que nos “estrangeiriza”.

Já o gauchismo ou tradicionalismo é um amplo movimento organizado que, transitando entre a realidade da vida campeira e seu estereótipo, procura difundir em toda parte o que considera a cultura do gaúcho. O empenho de grupos tradicionalistas em legitimar esse personagem e seu mundo como nossa verdadeira identidade, e a vinculação histórica do gaúcho aos heróis da Guerra dos Farrapos contribuem de forma decisiva para que o estereótipo seja largamente assumido pelos rio-grandenses como imagem de representação. No estado e no país quase já não se fala em rio-grandense, mas em gaúcho.

À parte sua real significação, o gaúcho é um símbolo que, em especial nos momentos em que a auto-afirmação se faz necessária, está sempre à mão, assim como o sentimento separatista.

Falando em identidade e separação, fecho parêntese e volto a Copacabana.

Um carnaval acontecer e ser noticiado com tanta naturalidade em pleno junho me levou a pensar nas regiões do “calor” brasileiro, sua gente e seus costumes, e a conectá-las com o cotidiano do Rio de Janeiro. O espírito da festa podia não repercutir em mim, mas certamente repercutia na maior parte da minha vizinhança carioca e Brasil acima. Apesar de toda a diversidade, eu via no Brasil tropical (generalizo assim para me referir ao Brasil excetuando sua porção subtropical, a Região Sul) linguagens, gostos e comportamentos comuns como sua face mais visível. Sua arte, sua expressão popular trazia sempre como pano de fundo o apelo irresistível da rua, onde o múltiplo, o variado, a mistura que a rua evoca ganhavam forma, sendo a música e o ritmo invariavelmente um convite à festa, à dança e à alegria de uma gente expansiva e agregadora. Havia, de fato, uma estética que se adequava perfeitamente ao clichê do Brasil tropical. E se não se poderia afirmar que ela unificava os brasileiros, uma coisa era certa: nós, do extremo sul, éramos os que menos contribuíam para que ela fosse o que era. O que correspondia tão bem à idéia corrente de brasilidade, falava de nós, mas dizia muito pouco, nunca o fundamental a nosso respeito. Ficava claro porque nos sentíamos os mais diferentes em um país feito de diferenças.

Se minha identidade, de repente, era uma incerteza, por outro lado, ao presenciar as imagens do frio serem transmitidas como algo verdadeiramente estranho àquele contexto tropical (atenção: o telejornal era transmitido para todo o país) uma obviedade se impunha como certeza significativa: o frio é um grande diferencial entre nós e os “brasileiros”. E o tamanho da diferença que ele representa vai além do fato de que em nenhum lugar do Brasil sente-se tanto frio como no Sul. Por ser emblema de um clima de estações bem definidas – e de nossas próprias, íntimas estações; por determinar nossa cultura, nossos hábitos, ou movimentar nossa economia; por estar identificado com a nossa paisagem; por ambientar tanto o gaúcho existência-quase-romanesca, como também o rio-grandense e tudo o que não lhe é estranho; por isso tudo é que o frio, independente de não ser exclusivamente nosso, nos distingue das outras regiões do Brasil. O frio, fenômeno natural sempre presente na pauta da mídia nacional e, ao mesmo tempo, metáfora capaz de falar de nós de forma abrangente e definidora, simboliza o Rio Grande do Sul e é simbolizado por ele.

Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente? O escritor argentino Jorge Luís Borges, que está enterrado aqui em Genebra, escreveu: a arte deve ser como um espelho que nos revela a própria face. Apesar de nossas contrapartidas frias, ainda não fôramos capazes de engendrar uma estética do frio que revelasse a nossa própria face."

Texto de Vítor Ramil

www.vitorramil.com.br


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Diário Hangar - Junho 2011


De volta ao sul...

Como prometido, não ficaremos muito tempo sem escrever nosso diário. Então vamos por a memória no "modo ativo" e lembrar nossas viagens no mês de junho de 2011.

Depois de alguns dias em casa, voltei a São Paulo no início do mês de junho para alguns compromissos com a banda e pessoais. Nosso próximo workshow seria no Rio Grande do Sul, na cidade de Panambi, a cerca de 350 quilômetros de Porto Alegre. Como sempre, esperamos o Infallibus que vem de Mococa com o Fábio e nosso novo motorista, Sebastião Telles. O Telles já havia viajado conosco para o Rio de Janeiro e está começando a se acostumar com a turma. Como ele é o mais novo na equipe, lógico que ele não iria passar batido pelas brincadeiras com o seu nome: Tevez, Celso, Térbio, Telecelso, Treves, Trelles, Tião foram algumas das alcunhas que ele recebeu e recebe até hoje nas viagens. A gente ainda não sabe direito se ele leva na brincadeira ou não porque simplesmente não conseguimos entender o que ele fala. O Telles não fala, resmunga... De vez em quando ele chama meu nome e ouço atentamente, mas geralmente preciso ouvir umas duas vezes. Ele é gente boa, bonachão e ainda tem um pescoço tão grande que o Aquiles diz que ele não consegue enxergar muito para os lados... heheheh. A visão periférica dele é prejudicada. Claro, tudo não passa de brincadeira com nosso motora, que tem a responsabilidade de nos levar nessas viagens longas pelo Brasil.

Panambi

Saímos de São Paulo na sexta-feira, dia 03, em direção ao sul. Seriam 1000 quilômetros até Panambi, em uma viagem longa, cansativa e perigosa. Rumo ao centro-norte do Rio Grande do Sul, a viagem seguiu pelo meio da região sul, ao contrário do caminho costumeiro pelo litoral, via Florianópolis e Porto Alegre. Para falar deste workshow vou voltar no tempo... Quatro meses atrás recebi um e-mail do Aquiles sobre uma escola na cidade que pretendia fazer um evento no mês de junho. Entrei em contato com a pessoa e começamos a negociar. O nome dele: Lorival ou "Loriva Batera", sugestivo? No decorrer das conversas o Lorival explicou-me que na cidade havia uma escola chamada "Escola de Talentos de Panambi". A escola era provida pelo Rotary Club e pela Secretaria Municipal de Cultura. Enquanto o Rotary comprava os instrumentos, a Prefeitura pagava os professores e os locais de sala de aula. De volta à viagem, logo na saída começamos a assistir o primeiro episódio da série Prison Break... O Aquiles levou a caixa completa de DVDs... Foi Prison Break a viagem inteira... O pessoal não aguentava mais as aventuras de Michael Scofield tentando salvar seu irmão Lincoln da cadeia de Fox River. Durante o dia e noite de viagem, nomes como a da Dra. Sara, Fernando Sucre, T Bag, Abruzzi, Veronica, o malvado Bellic e o temido Fibonnacci ficaram próximos da gente... Uma overdose de capítulos de Prison Break, melhor assim do que nada pra fazer.

Chegamos às 22h em Panambi com um frio de 5 graus. Inverno gaúcho de rasgar a pele. Frio mesmo! Fomos para o hotel e nos acomodamos para o dia seguinte. No meu quarto o ar quente não estava funcionando e como o hotel estava lotado, não pude ser acomodado em outro quarto. O workshow aconteceu em uma escola, o Colégio Evangélico de Panambi. O pessoal da equipe seguiu cedo para o Colégio, pois o evento seria às 16hs. Às 11 da manhã saímos em direção ao centro da cidade na companhia do Loriva, sua esposa Josie e o guitarrista Duda Beck, os três professores da escola. Chegamos à Escola de Talentos, onde uma pequena banda formada por meninos na faixa de 14 anos de idade nos esperava. Eram alunos dos professores Loriva e Duda, e prepararam uma pequena apresentação para nós. No formato bateria, baixo, teclado e duas guitarras, tocaram vários clássicos do rock como Highway to Hell, Jump e Born to be Wild. Ficamos todos emocionados com a homenagem. Um dos meninos, o baterista, era deficiente visual, o que fez a gente ficar mais ainda sensibilizado pelo momento. Uma cidade com 40 mil habitantes tem uma escola que ensina música para 520 crianças gratuitamente. Pensando nisso, concluímos de que alguma coisa realmente está errada neste país...

No final de manhã, chegamos ao local do workshow, um salão grande com um palco em três níveis. Muito bom, mas um frio tremendo. Passamos o som e logo fomos para o almoço, que foi servido no colégio mesmo, em um salão bem rústico e aconchegante, equipado com churrasqueiras e mesas pesadas. A esta altura nosso amigo Mauriel Ourique já estava na cidade e saímos para conversar e prosear em busca de pilhas para os microfones. Depois do almoço alguns voltaram para o hotel, mas eu acabei ficando direto até a hora do evento.

O workshow começou pontualmente às 16 horas e mesmo com frio de 5 graus o ginásio estava lotado. Além do pessoal da cidade tivemos muitas pessoas de cidades vizinhas como Cruz Alta e Ijuí. A Débora Reoly esteve presente para cobrir o evento e realizar uma entrevista para o Whiplash, que eu mesmo acabei fazendo depois do workshow e também nossos amigos Joana Frota (que prometeu um dia entrevistar a banda, sabe-se lá quando,rsrsrs) e o namorado Cilas e a Kitty Rigoli como sempre nos prestigiando.. Mesmo com sol o frio era intenso, acho que a tarde fazia uns 10 graus, no máximo. Divertimos-nos bastante com as perguntas dos presentes, a maioria músicos de todas as idades. Encontramos o Charlei Haas, nosso velho conhecido de outros shows passados na região e, sendo um ótimo fotógrafo, acabou trabalhando a tarde toda na cobertura do evento. Depois da sessão de autógrafos costumeira já era quase hora da janta. No mesmo local, saboreamos um churrasco, enquanto a noite caía na cidade e a temperatura despencava para 3 ou 4 graus. Tivemos a recepção do pessoal da Secretaria de Cultura, do Rotary Club e também da Prefeitura de Panambi. Foi um jantar diferente. Acho que sentimos que estávamos fazendo um trabalho em prol da cidade, levando música para aquelas pessoas da Escola que nos viam como exemplo a seguir. Isso ficou claro no pequeno discurso da Secretária de Educação, a Sra. Elenir Winck, que falou exatamente sobre a importância de estarmos ali neste dia. Mais uma lição e nos sentimos muito bem com esta nova perspectiva que vai além de uma simples banda de heavy metal, mas engloba também toda a parte educacional e pedagógica que envolve um evento como o que fazemos. Muito bom. O Aquiles falou em nosso nome desejando a todos muita sorte e agradeceu a oportunidade de mostrarmos esse nosso lado, digamos, mais "pessoa" do que "bicho", como costumamos brincar. Inesquecível. Como a janta foi cedo, o Charlei Haas, nosso cicerone na cidade nos convidou para conhecer o único pub do local, o Mr John, onde haveria uma grande noite "sertaneja" com música ao vivo e tudo mais. Depois de uma rápida passagem pelo hotel para um banho, Aquiles, Fábio, Daniel, Guilherme, o Rodrigo e eu nos dirigimos ao pub, lá pelas 22 horas. O frio era coisa de enlouquecer. No pub, fomos levados ao camarote para curtir a noite sertaneja junto com o Charlei e conversando com a rapaziada que timidamente se aproximava. Depois de algum tempo o teor alcoólico subiu um pouco e naturalmente as brincadeiras inconsequentes apareceram. Na volta para o hotel tomamos um taxi, que em Panambi custa R$10,00 para qualquer lugar que você queira ir. Éramos sete pessoas dentro do carro e amontoados na parte traseira o Aquiles conseguiu me dar uma cotovelada que quase me levou a nocaute. Meu cérebro ficou solto dentro do crânio, rsrsrs... Sim, quase fui a nocaute técnico e ninguém notou. Naquela gritaria ninguém percebeu e eu demorei uns bons segundos para voltar da "viagem"... rs. As velhas brincadeiras estúpidas que a gente faz quando está "high".

Montenegro

Saímos de Panambi no domingo e seguimos para a minha casa, onde ficamos no domingo todo e aproveitamos pra curtir o frio de Gravataí com um vinho típico da terra... Na segunda-feira o Fábio fez novamente um workshop na Escola Tio Zequinha, enquanto o Aquiles e eu seguimos para uma janta com o pessoal da Harman, nossos amigos Fábio Floriani e Richard Powell. É sempre bom bater um papo com as pessoas que compraram a nossa idéia maluca de perambular no Brasil todo com um ônibus patrocinado por eles. Na terça-feira pela manhã rumamos para Montenegro, pequena cidade a cerca de 60 quilômetros de Gravataí. O dia amanheceu com chuva e assim ficou até a outra manhã. Frio de 10 graus e chuva fina em cima. Foi um dia cinzento mesmo. Descarregar o ônibus no Teatro com este clima foi maçante. O pessoal da Art Som, Ademir e Vítor, já estavam nos esperando. A última vez que estivemos ali foi em agosto de 2008, aliás, foi a minha primeira viagem com o Aquiles, exatamente em Montenegro. A chuva não cessou, o que reduziu um pouco o público. Ainda assim, foi uma noite quente de metal. A sessão de perguntas foi bem produtiva e nos divertimos muito. Encerramos a noite no bar Cordel, onde jantamos acompanhados pela voz e violão da cantora Simone Schuster, que mandou muito bem vários clássicos do rock. Um vinho ajudou na digestão nas risadas, e o Aquiles acabou pedindo uma música da "Adele", sendo prontamente atendido pela cantora. Ficamos de voltar para fazer um acústico no Cordel em setembro, pode ser que aconteça.

Osório

Voltamos para Gravataí na quarta-feira pela manhã, passando antes na Harman para mais uma reunião, desta vez com o pessoal da diretoria e do marketing. É muito bom ver que estamos alinhados com as ideias deles nesta nova fase. Pra quem não sabe, a Harman, empresa de capital estrangeiro, incorporou a Selenium, nossa antiga parceira. Quinta-feira foi dia do Aquiles dar aulas no Batera Store de Porto Alegre. No dia seguinte fomos a Novo Hamburgo fechar uma data de workshow para setembro e encontramos o Rodrigo da Urban Boards, nosso grande amigo. Sábado à noite, ainda com frio, fizemos um churrasco na minha casa, com todos os presentes menos o Fábio que foi até Criciúma gravar o disco do nosso amigo Thiago "Hommer" Daminelli. Domingo pela manhã seguimos cedo para Osório, pequena cidade no litoral gaúcho. Quem nos aguardava lá era o Newton Arboitem, da loja Roll Over. O Newton se encarregou de fechar com a Secretaria Municipal de Cultura o show do Hangar em um lugar muito legal chamado Largo dos Estudantes. É um lugar que antigamente era a céu aberto, mas agora conta com uma cobertura e climatização. Fomos muito bem recebidos por todos, em especial pelo Newton e pela sua esposa, Lara. O clima foi tão bom que nos divertimos bastante durante o show. Teve até um pequeno discurso da Secretária de Cultura no meio do show... Acho que estamos virando experts neste tipo de evento, onde as pessoas da cultura da cidade se identificam com a nossa mensagem, assim como os fãs da banda. Foi uma noite agradável. Depois do show fomos jantar e contar "histórias de rock" conforme alguém acabou se referindo. O Newton e esposa são figuras ímpares, merecedores do rótulo de sucesso. Parabéns a eles. Vamos voltar a Osório em setembro ou outubro para um workshop de bateria do Aquiles e algumas aulas. Por volta da meia noite me despedi dos companheiros que rumaram para São Paulo enquanto eu voltava para casa em Gravataí. Foi uma semana intensa com muitas surpresas.

Este é um resumo de nossas aventuras de junho de 2011. Em breve vamos falar de julho, da nossa visita a Goiânia, onde tatuamos nossos corpos e fizemos o “Pain Day” do Hangar. Reportarei os shows em Goiânia, São José dos Campos, Paraguaçu Paulista e no SESC Pompeia. Tudo com os devidos detalhes, como sempre. Espero que vocês gostem e continuem seguindo nossas aventuras.

Texto : Mello

Revisão : Laguna

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Diário Hangar - Maio 2011


O episódio Dream Theater e a audição do Aquiles.

Cada vez que publicamos o diário de nossas aventuras costumamos receber várias mensagens de apoio e de consideração de pessoas que nos acompanham elogiando muito a sinceridade e a abertura que damos as pessoas de nos conhecerem como banda e também como indivíduos. Não escondemos praticamente nada e isto cativa muitos de nossos seguidores, fãs e amigos. Seguindo esse perfil, não poderia deixar de escrever sobre este episódio que marcou muito a nossa carreira, mais em particular a de um dos nossos integrantes mais queridos, o Aquiles.

Começo pelo ano de 1992. As paradas eram dominadas por grupos como Guns’n’Roses, Skid Row e até mesmo o Iron Maiden com a sua famosa “balada” Wasting Love. Eu vinha de outra geração, acostumada à repressão contra a música “pesada” que dividia o espaço com o “progressivo”, palavra que deixou de ser usada hoje ou foi substituída por “prog” ou “prog power”. As grandes bandas ainda eram o Led Zeppelin, Deep Purple, Rush, Yes, Pink Floyd, etc. Foi aí que li em uma Rock Brigade de 92 uma nota sobre uma banda nova dizendo exatamente assim: ”uma mistura de Metallica, Rush e Yes com uma sonoridade atual”. A nota não tinha mais que uns 10 centímetros e trazia uma foto da banda e os dizeres “Dream Theater”. Corri para a loja “Megaforce” e perguntei pela banda. O Ademir, dono do lugar, me trouxe uma “fita cassete”. Você que está lendo sabe o que é uma “fita cassete”? Na época não existia CD nem downloads e a internet comercial demoraria mais cinco anos pra chegar ao Brasil. Sai com a fita e escutei pela primeira vez o “Images and Words”. Eu já tocava e a entrada do DT na minha vida causou um impacto muito forte. A banda representava a modernidade para o som que costumava escutar de bandas dos anos 70, principalmente o Yes, que eu particularmente venerava. A abordagem moderna dos músicos, as letras inteligentes, os arranjos eram tudo que eu e vários amigos que se somaram na cidade gostavam de ouvir. A banda se tornou uma referência. Esta admiração seguiu durante os anos em todos os CDs lançados pela banda. Em 99, quando entrei para o Hangar encontrei o Michael, outro “dreamtheatermaníaco”. Embora não fosse uma influência tão clara para o Hangar, era inquestionável a admiração pela banda e seus músicos. Passamos a tocar um “medley” deles. Sim, os “medleys” já existiam para o Hangar desde 99, era um do DT e outro do Pantera. Não lembro bem mas acho que tocávamos “Pull Me Under, Metropolis e Under a Glass Moon”. Mais ou menos uns 12 minutos de música. Também tocávamos “Burning my Soul”. Assim como o Aquiles tem uma grande admiração por um baixista chamado Steve Harris, o contrário acabou acontecendo comigo, Mike Portnoy acabou se tornando um ícone pra mim durante estes anos. Ele representava tudo aquilo que o DT tocava. Chegou 2008 e o DT iria tocar no Brasil em três cidades e por escolha própria decidiria quem iria abrir os seus shows. Fiquei monitorando nosso email diariamente, até que apareceu lá o convite assinado pelo próprio Mike Portnoy, convidando o Hangar para tocar em março de 2008 no show em São Paulo. Lembro que sai falando alto pela casa, a emoção foi muito grande. No dia do show tive a oportunidade de conhecer os caras que sempre admirei. Rudess sempre brincando, sendo acolhedor. Petrucci na posição de “guitar hero”, falando sobre equipamentos com o Martinez, Myung simplesmente falando somente “Hi” e mais nada e o falastrão e aparentemente líder do grupo, Mike Portnoy, que me falou que adorava Iron Maiden assim como nós, que costumeiramente tocamos Iron em nossos shows. Neste dia inclusive o Aquiles entrevistou o Portnoy para uma revista nacional. O dia foi perfeito e o show mais ainda. Tive a oportunidade de levar o Lucas, meu filho, outro apaixonado pela banda a este show em São Paulo e nada como realizar o sonho de um filho. Ele saiu extasiado de lá ao ver seus ídolos tão de perto. Todo estes parágrafos iniciais ilustram um pouco do significado e das palavras seguintes.

Hangar e Dream Theater têm alguma coisa em comum?

No ínicio de setembro todos da comunidade musical tiveram a noticia surpresa de que Mike Portnoy estava deixando a sua banda. Quando li a “news” liguei imediatamente pro Lucas pra contar. Ele ficou muito chateado, mas enfim são coisas que acontecem e ficamos conversando sobre os porquês e afins de tal verdade. Passaram-se alguns dias e mais uma vez eu estava em casa tocando com o meu filho no estúdio e o assunto voltou a tona. Mas quem poderá substituir o cara na banda? Lembro que brincando falei: ”faz uns quatro ou cinco dias que o Aquiles não me manda e-mail, isso é estranho, tem alguma coisa no ar, rsrsrsrs”. Um deja vu de 2000 quando da entrada dele no Angra me subiu a mente... Viajei para Tatuí onde nos encontramos para os ensaios do acústico para e Expo 2010.

Todas as bandas tem altos e baixos, momentos legais e outros nem tantos. Em setembro estavamos em um impasse sobre o que tínhamos feito até o momento com a tour do Infallible. Quando se tem uma banda assim com uma estrutura como a do Hangar as coisas ou se tornam imensamente mais fáceis ou imensamente mais difíceis. Fazer metal no Brasil requer uma carga enorme de paciência, investimento e a resposta pode não ser a que você realmente merece. Isso é um fato. Naquela semana começamos a conversar sobre o futuro e eu tinha a sensação de que a nossa missão como banda já estava cumprida. Posições fortes sobre esta questão de sobrevivência no mercado... Temos famílias, obrigações e não somente a festa que as pessoas veem no palco. A esta altura depois de falarmos muito finalmente o Aquiles começou a falar. Quando ele disse: “vocês sabem que o Portnoy saiu do DT? Recebi um email...”. Enquanto o Aquiles tentava contar, nós não conseguiamos parar de rir. Um riso de satisfação, alegria, endorfinas a mil...

Por todos os problemas que falamos naquela noite a sensação após aquela notícia para mim era que “tudo tem um objetivo”. Talvez a banda tivesse que chegar até aqui para que outra coisa acontecesse mais adiante. Meu sentimento era de que “talvez estes 13 anos tivessem sido exatamente para vivermos este momento” e que se tudo terminasse ali teria valido muito a pena.

A noite foi pequena para a banda em Tatui. Conversamos muito sobre o que iriamos fazer e acabamos indo comemorar em um bar na cidade onde faltaram cervejas e “sex on the beach”. Naquela altura do campeonato ninguém tinha a exata noção de como seria a audição e quantas pessoas eles chamariam. Eu imaginei que seriam dois ou três nomes, o que elevaria consideravelmente a possibilidade do Aquiles ser chamado. Traçamos alguns objetivos e decidimos deixar o tempo passar pra ver o que iria acontecer. Desmarcamos alguns compromissos e deixamos o Aquiles a vontade para estudar e ensaiar as três músicas da audição. Nada seria mais importante do que o futuro dele naquele momento. Uma das coisas que carrego comigo e espero que a banda sempre pense assim, é que a amizade e o respeito venham em primeiro lugar. Visualizar a consolidação da carreira de um de nós de maneira grandiosa seria um grande feito e orgulho para todos, que começamos pequeninos lá nas nossas garagens a “brincar de rock”. Durante a Expo lembro que estávamos eu, o Aquiles e o Rafael Dias do Batera Store saindo da casa do Aquiles de carro e ele recebeu um email do Petrucci. O primeiro contato de um membro da banda. Após a Expo, em setembro marcamos somente um show no inicio de novembro e deixamos o Aquiles completamente à vontade para estudar.

Embora quase que isolado em Tatuí estudando, mantive contatos esporádicos para saber como ele estava e a expectativa. O visto não saia nunca e mesmo com a confirmação por carta da produção do DT e da gravadora. A solução foi um agendamento em Recife cinco dias antes da viagem, já confirmada com passagem e estadia. Este momento de stress com certeza foi pesado.

Ficamos meses sem poder falar abertamente sobre este assunto. Além da minha família, apenas o Rafael Dias e o Marcelo Rodrigues (outro grande amigo e DTmaníaco) e o Michael Polchowicz ficaram sabendo da novidade. Mesmo assim era algo dificil de esconder, na Expomusic o boato foi espalhado por muita gente, mas nunca confirmado. No dia da audição, exatamente na hora precisa lembro que o meu filho me ligou e disse “não vai ser fácil, mas o Aquiles é um “cara de banda” e não um cara de “clínicas”, e ele merece por toda a sua história e somos poucos mas estamos aqui torcendo como se não houvesse amanhã...”. Eu desliguei o fone e pensei: “mas de onde este “guri” tirou esta frase???” Vai ver herdou alguma coisa do pai... hauhua.

Após uns dois dias da chegada do Aquiles no Brasil ele passou um email contando a experiência. Um email com varias páginas, extenso, como ele não costuma fazer, geralmente prefere mensagnes curtas e objetivas. Entendi aquilo como um desabafo , ele precisava contar a experiência. Depois no telefone ele admitiu que já sabia que não seria ele. Que ele não havia se sentido confortável tocando os novos Odd time signatures, etc...Nestas horas lógico que a pessoa sente o momento e sabe se existiu a química perfeita ou não.

Abril e os vídeos

Seria redundante falar sobre os meses que se seguiram após outubro e novembro. Na real pelos indícios e notícias todos da banda e do mundo musical lá fora já sabiam que o provável indicado seria o Mike Mangini. Isso ficou bem evidente após a Namm em janeiro de 2011. Nestes meses uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a imensa corrente positiva que se fez em torno da escolha do Aquiles. Muitas pessoas calcadas nos boatos aderiram a campanha pró Aquiles no DT. Isso foi muito positivo. Pessoalmente achei a edição dos vídeos de acordo com o resultado, embora um pouco injusta com alguns bateras, mas isso com certeza com o passar do tempo irá ser ajustado quando mais imagens vierem a tona.

Como toda árvore que se planta e dá frutos, resta ao Aquiles colher os frutos da experiência que com certeza se estenderão para sempre na sua carreira e à banda, tentar fazer um bom suco de gosto doce a aprázivel com estes mesmos frutos. Não há como não se orgulhar desta experiência. Para a banda foi um momento marcante. Sempre falamos que se acontece algo para um de nós é como se acontecesse para si próprio. Nos colocamos no lugar do outro e sentimos e vibramos com nossos avanços, sentimentos, vontades e vitórias. Neste episódio não foi diferente.

A vida continua, ao alto e avante.

Seguimos adiante com os shows e chegamos ao Rio de Janeiro no dia 07 de maio. Muita gente já tinha me falado que o Rio vive uma crise de shows com a falta de lugares apropriados para os eventos. Nosso show aconteceu na Lona Cultural de Campo Grande, cerca de 30 ou 40 km distante do centro da cidade. Fomos acolhidos com muito carinho pelo pessoal da produção. O Bruno Borurguignon e sua equipe foram maravilhosos. Ficamos em uma pousada muito legal próxima ao local do show e rolou tudo tranquilo. Tivemos a oportunidade de reencontrar nossos amigos William , Joyce, Jorge Henrique, Dingo, Victor e Fernandinha. O William passou o dia conosco, pois mora muito perto. Ele ajudou a encontrar uma lan house para imprimir o set list. Acompanhou todo o processo da chegada até a hora de irmos embora. Fizemos um grande show para nossos amigos cariocas e esperamos em breve poder voltar à cidade.

Bebedouro

Dia 13 viajamos para Bebedouro onde realizamos um workshow no Teatro Municipal da cidade. Aqui cabe um parêntese. Cada vez mais estamos desbravando os teatros das cidades. Teatros municipais e do Sesc já tornaram-se uma constante na nossa agenda, o que faz a gente muito feliz. É mais uma conquista para o público de metal que consegue ver e ouvir um show com comodidade e qualidade. Fomos recebidos pelo grande amigo Rodrigo “Ganso”, vocalista da banda VersOver. Montamos todo o set e o público compareceu em grande número para o evento. No final o Rodrigo, a exemplo do que já havia acontecido na cidade de Catanduva, subiu ao palco e cantou “Master of Puppets” conosco. Uma grande festa.

Virada Cultural Paulista

Pelo quarto ano consecutivo fomos convidados a participar da VCP. Estivemos duas vezes em Caraguatatuba e uma vez em São Bernardo do Campo. Nas outras vezes dividimos o palco com o Sepultura e o CPM22. Recebi a carta convite para o evento deste ano e a cidade que nos esperava seria Presidente Prudente, a cerca de 500 quilômetros da capital. Com o passar do tempo comecei a ouvir rumores de que a banda que iria tocar conosco seria o Angra. Um mês depois recebi a confirmação. Lembro que estava no EMT em São Paulo e na saída encontrei o Rafael Bittencourt e após os cumprimentos normais falei para ele que as duas bandas iriam tocar juntas em maio e que seria legal que isso enfim acontecesse. Assim que falei isso a expressão dele mudou um pouco e ele ficou meio sério. Acho que ele não sabia desse show. Enfim, achei legal levar a informação embora não esperasse uma reação tão fechada. Após a liberação da noticia nos sites houve uma grande ocupação por parte dos fãs pelo encontro das duas bandas, em especial do Aquiles e do Fábio com o restante da banda que eles participaram por vários anos. Todos sabem os motivos e as causas do que isso representa. Na verdade nós não nos preocupamos muito com isso, apenas nos preparamos para um show que sabiamos que iria passar da casa das dez mil pessoas e como sempre levamos todo o nosso equipamento para evitarmos surpresas. Saímos de Bebedouro por volta das 3 da manhã e chegamos a Prudente às 8 horas. O palco já estava montado e pontualmente às 9h os carregadores chegaram e começamos a descer nosso equipo do Infallibus. Uma das coisas que eu tenho que valorizar é a nossa organização em dias de shows. É muito legal ver nosso equipamento em cima do palco completamente coberto por cases azuis com o logo “H” pintado em todos os lados e nossa equipe toda uniformizada com camisetas da “Infallible Crew”. Isso causa um certo impacto quando visto do lado de fora da banda. E foi o que aconteceu esse dia. Recebemos muitos elogios e total apoio da equipe da VCP local. Lembro que achei um papel atirado no chão na área verde entre o palco e os camarins e fiquei procurando uma lixeira. Acabei encontrando-a e minutos depois um senhor se dirigiu até mim e falou: ”fiquei observando e vim te dar os parabéns”. Não entendi nada e ele completou: “vocês chegam aqui, dão um show de organização e você que é um dos músicos da banda ainda fica procurando uma lixeira pra não deixar um papel no chão. Eu sou o Secretario de Cultura de Prudente e é um prazer recebê-los aqui e no que puder ajudar, pode me procurar.” Enquanto a Infallible Crew reforçada pelo iluminador Marcelo Mattos, vindo direto de Camboriú e Leonardo Ninello que estreava como técnico de guitarra, montavam a bateria e os amplificadores, a equipe do Angra chegou e começou o seu trabalho. Eram todos nossos conhecidos e o trabalho seguiu tranquilamente. A organização da VCP acabou antecipadamente nos colocando no melhor horário da noite, às 22hs30, com o auge de público, além de um camarim exclusivo, ao contrário das outras atrações que dividiam um camarim do outro lado da estrutura. Já na tarde, observava-se a movimentação no Parque do Povo, uma área verde enorme, praticamente o pulmão da cidade. Às 14hs, nos dirigimos para a passagem de som, que ocorreu tranquilamente e depois descemos para uma entrevista para a sucursal da Rede Globo na cidade, matéria que foi veículada no mesmo dia no jornal das 19 horas. Na tarde fomos recepcionados pelo nosso amigo Cezinha, que tem um programa de rádio na cidade e que promoveu nosso show no ano de 2009. Fomos até o shopping e almoçamos. A cidade parecia respirar música, muita gente de fora, Marilia, Paraguaçu Paulista, Mato Grosso e do norte do Paraná. Voltamos ao palco por volta das 21 horas para a preparação do show. Encontramos no backstage o grande baterista gaúcho Alexandre Fonseca que acompanhava a cantora Ana Canãs no evento. Levei-o até nosso camarim para encontrarmos com o Aquiles e ficamos trocando memórias sobre o tempo em que ele morava em Porto Alegre. A esta altura o backstage era uma tremenda confusão com entra e sai de pessoas da imprensa, produção e bandas. Nestes eventos sempre tento deixar a banda o mais a vontade possível e como não consigo ficar parado tento organizar tudo com a imprensa e convidados, filtrando os acessos para que tudo não vire uma grande desorganização. Como não temos um “manager”, acabo assumindo um pouco desta função. Assim, organizei a ordem para as entrevistas antes do show. Foram muitas mas bem legais, com muito bom humor envolvido. Faltando 30 minutos é hora de encerrar tudo e deixar todo mundo se aquecer e se concentrar no show. Com som e luz perfeitos e 17 mil pessoas na plateia não há como você não realizar um grande show. A energia do dia foi muito massa, todos na banda deram o máximo e eu via isso no sorriso de cada um enquanto a gente tocava. O Aquiles conseguiu estourar a pele da caixa, quebrar pedestal de prato, tocando com muita precisão e força e ao mesmo tempo com um grande sorriso. O Humberto, o Martinez e o Fábio mandaram ver com uma energia contagiante. O público respondia a cada música com uma força incrivel. Foi um grande momento para o Hangar. Nestas ocasiões, como bom nostálgico que sou, lembro-me do passado, do início em Porto Alegre, e ali estava a banda com 17 mil pessoas apoiando. A sensação de que não importava quem tocaria antes ou depois, nosso show seria o mesmo... No final tiramos uma foto para a posteridade e nos despedimos com os gritos de “Hangar” vindo do público entusiasmado. Dizer que foi sensacional é pouco. Descemos em direção ao camarim e ao backstage e nos recolhemos por alguns instantes para celebrar. Trocamos de roupa e saímos para atender a todos no backstage. A esta altura eu já estava falando com o pessoal da equipe para o desmonte do equipamento. Com uma área tão próxima, afinal era um festival, acabamos encontrando todas as bandas. Não foi diferente entre Hangar e Angra. O primeiro que encontrei foi o Rafael, nos cumprimentamos e desejei um ótimo show para ele. Depois, no meio da muvuca do backstage, encontrei o Felipe e o Edu Falaschi e os levei até nosso camarim para um breve olá. Nessa altura da carreira, mesmo com diferenças no passado, a maturidade de um reencontro, um cumprimento, uma palavra sobre qualquer assunto que seja são benvindos. Não há como deixar um passado para trás, ele faz parte do presente e sempre fará parte do futuro. E foi assim, com grandeza, que ficamos por alguns bons minutos conversando no camarim. Logo no início do show do Angra nos divertimos bastante com a busca ao celular do Aquiles perdido em algum lugar... Reviramos todo o camarim enquanto eu ligava e o mesmo tocava, mas não conseguíamos ouvi-lo. A solução foi procurar no palco e após uns 30 minutos o Aquiles encontrou o aparelho a cerca de 3 metros abaixo jogado na grama. Quando saimos do local em direção ao hotel, encontramos cerca de 200 pessoas em volta do Infallibus. O pessoal não conseguia colocar nosso equipamento no onibus e tivemos que chamar a galera para a parte da frente do Infallibus, enquanto as equipes de segurança da Virada faziam um corredor para que o equipo e o pessoal passassem e tivessem acesso ao bus. A festa continuou por um bom tempo madrugada a dentro. O hotel era bem próximo, mas consegui dormir cedo. No outro dia nos fomos para o teatro da cidade, onde fizemos um workshow completo, com apoio do nosso amigo Cezinha. Logo após o evento, seguimos de volta a São Paulo, de onde cada um partiu para as suas casas para um bom descanso.

Este foi o panorma dos meses de abril e maio, em breve estarei contando um pouco da aventura de junho em Panambi, Montenegro e Osório no Rio Grande do Sul, grandes surpresas e confusões como sempre..até breve.

Nando Mello

Revisão Fábio Laguna

*Foto ilustrativa, Hangar e Dream Theater em março de 2008.